Risonete Presente: casa, memória e caminhos que permanecem

Nesta semana, nos despedimos de Risonete Fernandes.

A tristeza de sua partida encontra, aos poucos, outras formas de existir: nas lembranças compartilhadas, nas fotografias, nas palavras escritas nos muros e, principalmente, nas pessoas que caminharam ao seu lado.

Entre os registros que ficaram, uma frase escrita por Risonete parece dizer muito sobre sua maneira de compreender o mundo:

“Essa casa sou eu, é você.
Casa gente,
gente que fica.”

Talvez seja também uma forma de falar sobre memória.

Porque algumas pessoas permanecem não apenas naquilo que disseram, mas nos encontros que provocaram, nos lugares que ajudaram a construir e nas relações que transformaram ao longo do caminho.

 

Uma história feita de encontros


A trajetória da Associação Vida em Ação está ligada, desde sua origem, à defesa dos direitos humanos, à inclusão social pelo trabalho e à construção de possibilidades para pessoas que convivem com os serviços de saúde mental. A AVA nasceu em 2004 e, ao longo dessa caminhada, participou do desenvolvimento de experiências de geração de trabalho e renda orientadas pela cooperação, pela autogestão e pela economia solidária.

Entre essas experiências está o Bar Saci, um empreendimento econômico solidário da saúde mental em que o trabalho foi organizado coletivamente, com decisões construídas em reuniões e sem uma estrutura hierárquica tradicional. Mais do que uma atividade econômica, ali se produziam também encontros, trocas e novas possibilidades de participação social.

Esse percurso também ajudou a aproximar diferentes iniciativas de trabalho e renda em saúde mental. Em 2008, os encontros entre esses projetos contribuíram para o surgimento do que viria a se tornar a Rede de Saúde Mental e Economia Solidária.

É nesse território de histórias compartilhadas que também encontramos a presença de Risonete.

“Casa gente, gente que fica”

Em um de seus textos, Risonete escreveu:

 

Hoje, essas palavras ganham uma dimensão ainda maior.

A casa de que Risonete fala parece ultrapassar paredes e endereços. É uma casa feita de presença. De gente. De convivência. De histórias que se encontram e deixam algo umas nas outras.

Nos últimos dias, sua memória também ganhou as paredes.

“Risonete Presente” foi pintado em letras grandes, acompanhado de flores, cores e palavras que nasceram de quem a conheceu. Em outro trecho, alguém escreveu:

“Risonete, teu nome tudo promete,
no teu riso, Risonete,
vimos como se tecem
novas formas,
novas cores celestes.
E por isso, Risonete,
tua luta jamais se esquece!”

Não é apenas uma homenagem. É uma maneira coletiva de dizer que uma história continua fazendo parte de outras histórias.

O que permanece

Risonete também deixou palavras que hoje parecem conversar diretamente com esse momento:

“Passarinho eu só sei cantar
e não há mais quem cante assim.
É uma forma de alegrar
um carinho que está em mim…
Canto o rio, canto o céu e o mar,
meu canto não é ruim.
É melhor rir do que chorar,
me perdoem se penso assim.”

Há algo profundamente vivo nessa maneira de olhar para a existência.

Por isso, ao lembrar Risonete, queremos guardar não apenas a ausência que sentimos agora, mas também aquilo que sua presença colocou em movimento.

As conversas. Os encontros. As lutas compartilhadas. Os espaços ocupados. As risadas. Os afetos. As histórias que permanecerão sendo contadas por quem esteve perto dela.

Na experiência da economia solidária, cada trabalhador chega com sua própria história, sua experiência e seus direitos e é justamente a convivência entre essas diferentes trajetórias que forma o coletivo.

Talvez seja também por isso que algumas pessoas nunca desapareçam inteiramente de uma comunidade.

Elas passam a fazer parte daquilo que ajudaram a construir.

 

Vídeo – Risonete, sobre as Feiras e a Moeda Social Qualquer

 

Risonete Presente

Este texto é também um convite à memória.

A quem conviveu com Risonete, ficam abertas estas páginas para suas histórias, lembranças e palavras. Cada depoimento pode revelar uma parte diferente de quem ela foi e ampliar essa memória construída coletivamente.

Porque uma vida não cabe em uma única homenagem.

Ela continua nas pessoas.

Continua nos lugares.

Continua nas histórias.

Continua naquilo que ainda será construído.

Há pessoas que continuam presentes no que deixam em nós e no que ajudam a construir.

Risonete permanece na memória, nos vínculos, na luta e nos caminhos que seguem sendo construídos.

Risonete Presente. ⭐️❤️

 

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